“Quinze de julho de mil novecentos e cinquenta e cinco (15/07/1955), aniversário da minha filha, Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela, mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização de nossos desejos. Atualmente, somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”, diz trecho do Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus, narrado ao som da Banda Mambaia (Sanga, composição de Fernando Bertani) por Ligiane Ferreira, que integra o projeto Glória do Meu Quilombo – a importância de Carolina Maria de Jesus.
O projeto de educação antirracista do Paraná lançou em maio no Spotify recortes do livro Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus lançada em 1960. “Uma escrita que ultrapassou fronteiras, traduzida em mais de 16 países, e que segue viva, pulsando verdade, dor e humanidade”, destaca a idealizadora do projeto na abertura do material.
Este é o segundo audiolivro do projeto, que espera alcançar mais de 1.800 estudantes com a iniciativa. A ideia é de que alunos, professores e toda comunidade escolar continue reverberando a história da escritora negra, que foi mãe solteira, com pouca instrução e moradora da favela do Canindé, em São Paulo. Atravessadas pelo racismo, e outras violências sociais, as trajetórias de vida de pessoas pretas e pardas são representadas neste projeto, que traz a narrativa e cultura do povo negro em destaque ao resgatar a memória destes personagens e sua contribuição para a formação social e cidadã nas cidades.
O audiolivro é a contrapartida do projeto que conta com o apoio da Secretaria do Estado da Cultura, Governo do Paraná, e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura, Governo Federal.
De acordo com Ligiane Ferreira, que também é responsável pela direção-geral do produto e orienta os circuitos de palestras pelo Estado do Paraná, o audiolivro deverá servir de apoio às professoras e professores, e equipes pedagógicas, da rede pública de educação por onde o projeto passa. A artista e educadora popular acredita que as leituras disponíveis no material tornam o letramento racial dos estudantes e da comunidade escolar mais acessível. Além disso, o formato também é inclusivo, permitindo que os estudantes consumam obras literárias, biografias ou conteúdos educacionais apenas ouvindo.
“O audiolivro auxilia na democratização do acesso à cultura e de artistas e intelectuais negros e negras. Além disso, os livros falados são ótimos recursos para pessoas com deficiências visuais e outros transtornos de leitura, como dislexia, por exemplo”, completa.