Seleção Brasileira ao sol e à sombra

30 de julho de 2026 14 min de leitura

Coluna Disputar a História é disputar memórias de Vitor Bomfim Lopes

Existem muitas mortes da Seleção Brasileira. Tal qual um personagem trágico da literatura grega ou shakespeariana, nossa seleção parece fadada à ruína, não por falta de grandeza, mas pelo peso do destino inevitável. 

Podemos considerar como a primeira de todas o fatídico e inesquecível Maracanazo. Perdemos em casa, favoritos, com mais de 200 mil brasileiros e brasileiras no templo sul-americano do futebol, o nosso Maracanã. Onze uruguaios acabaram com o sonho do primeiro título mundial naquele ano de 1950. 

Feriram nossa alma, nosso ego, nossa alegria. Ali, a Seleção Brasileira teve sua primeira morte simbólica. 

Para alguns jogadores daquele elenco  – Barbosa, Ademir, Bigode – a dor do luto foi maior. Somos um povo exigente com nossos heróis e quando a recompensa do esforço não vem, o apoio torna-se cobrança. Barbosa, um dos melhores goleiros do nosso futebol, nunca mais foi convocado, Bigode foi taxado de covarde e Ademir, o artilheiro da seleção naquela Copa –  9 gols marcados –, já ídolo do Vasco da Gama naquele período, fugiu do Rio de Janeiro após a partida. Era como se a cidade maravilhosa tivesse se tornado um lembrete do fracasso. Foram quinze dias longe, mas o gosto amargo da boca nunca o deixou, e acredito que não tenha saído nunca de qualquer jogador presente naquele dia. 

Da queda veio a renovação. 

Como gostamos de dizer com os pulmões cheios de ar: vivemos num país tropical, abençoado por Deus. E essa bênção passa pelo futebol e pelas pernas dos garotos que fazem desse esporte sua vida e sua arte. 

Seu Dondinho era um dos milhares de brasileiros que choraram ao ouvir no rádio a fúnebre notícia do 2×1 sofrido pelo Uruguai em 1950. Seu Dondinho morava no interior de São Paulo com sua mulher, Dona Celeste  – ah, a ironia!  –  e seus filhos; um deles, um garotinho de 9 anos não aguentou ver seu pai chorar e prometeu uma Copa do Mundo pela Seleção. 

Esse garotinho é uma das bênçãos que Deus nos proporcionou: Pelé. 

Foram necessários mais oito anos de espera para que a nossa Seleção Brasileira se reerguer do trauma. Marcados pelo luto, mudanças foram feitas. A amarelinha surge aí, a primeira comissão técnica também (chega de amadorismo, agora futebol era coisa séria). 

O resto é história: Pelé, Garrincha, Zito, Djalma Santos, Bellini e outros lendários jogadores. Acredite, para quem não entende muito de futebol, esses nomes são como deuses sendo mencionados em narrativas greco-romanas. 

Se o trauma de 1950 foi devastador, a ascensão foi tão impactante quanto. Ganhamos em 1958, com esse gênio do futebol chamado Pelé, de 17 anos, ao lado de outros geniais companheiros – não posso deixar de mencionar Garrincha, seria um sacrilégio. Em 1962, nosso herói (já quase Rei) Pelé sai de cena, ferido, e surge a apoteose de um anárquico, Garrincha. 

Somos bicampeões, os primeiros que conseguiram o feito de maneira seguida. 

Do auge vem a queda. Estávamos tão alto, tão longe do chão, que não poderia ser diferente: o tombo nos matou. A segunda morte.

O tombo feriu nosso Príncipe Pelé. Os europeus costumam se incomodar com a grandeza vinda de alguém que deveria ser menor na visão deles, assim, caçaram o camisa 10 como só europeus sabem ao conquistar o que não é deles. Pelé foi caçado em cada lance, como se sua existência dentro de campo precisasse acabar, como se cada passo com a bola do nosso craque fosse uma blasfêmia, um deicídio. Machucado no primeiro jogo, machucado no segundo, Pelé tentou resistir. Mesmo destruído fisicamente, Pelé tentou. Foi caçado novamente e, contra Portugal do também lendário Eusébio, sofreu com entradas que mais pareciam querer ceifar sua vida. 

O Brasil, naquela Copa, caiu na fase de grupos. A primeira vez em sua história. Um vexame. Uma morte rápida. 

Envergonhado, relembrando Ademir lá de 1950, Pelé falou com todas as palavras que nunca mais vestiria a camisa do Brasil. Estava exausto, cansado de ser o foco dentro e fora de campo. Queria sumir, tal qual o craque de 1950 fez. 

Também foi o fim do nosso trágico herói, Garrincha. Viveu como poucos, viciado no néctar do Olimpo, de corpo e alma entregues ao futebol. Na trajetória que jamais deve ser esquecida, deixou a marca em ferro na história da amarelinha: Garrincha e Pelé, jogando juntos pela Seleção Brasil, nunca perderam um jogo  –  a dupla possui 40 jogos juntos.

E aí, quem juntou os cacos, enxugou as lágrimas e sacudiu a piazada? Um comunista, é claro!

João Saldanha, ou se preferirem, João Sem Medo  – assim como Marighella, Saldanha não tinha tempo de ter medo. Apenas a coragem de um comunista, em plena Ditadura Empresarial-Militar para aceitar o convite da CBD e dizer na cara do Havelange: se vou ser técnico, quem manda no time sou eu. 

Mudou, reformulou, fez o que tinha que fazer. Saldanha bateu de frente com praticamente todas as principais ordens vindas de cima ao montar sua seleção  –  já nessa época a CBD (futura CBF) já possuía seus favoritos e suas corrupções; e bom, tínhamos também uma ditadura instaurada no país, ordens unilaterais é o que mais existiam. 

Saldanha é como Quíron, o centauro mentor de Teseu, Aquiles, Hércules. No nosso caso, Saldanha lidou com Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson. 

Sim, Pelé tinha voltado, e Saldanha foi crucial  –  já agradeceu ao comunismo pelo tri mundial do Brasil? 

Claro que o casamento entre a seleção de Saldanha e a Ditadura Empresarial-Militar terminou rapidamente. Imagina o que seria explicar para os jovens e adultos do Brasil (e do mundo) que um comunista foi responsável em levar o Brasil ao tri. Não pega bem pra narrativa doutrinadora do capitalismo, ainda mais quando mexe na vitrine popular chamada futebol. 

Então, na copa de 1970 a seleção chega com Zagallo como treinador. 

E em 1970, na primeira Copa do Mundo transmitida com cores para o mundo e que, para o Brasil, era a primeira ao vivo, um objetivo claro à personagem dramática do nosso texto: o tricampeonato. No caminho, como é de se esperar das dramaturgias, um obstáculo: primeiro, um fantasma de 20 anos atrás, o Uruguai na semifinal; depois, uma potente Itália, também disposta a ser a primeira seleção tricampeã do mundo. Mas, quem tem Pelé, Jairzinho, Gérson, Tostão e companhia tem tudo. 

Em 1970 surge, em definitivo, o Rei Pelé. Coroado no México.

A primeira seleção tricampeã mundial. Três capitães brasileiros ergueram o troféu Jules Rimet. A taça só existe da forma como conhecemos hoje porque foi o Brasil que fez a FIFA mudar o estilo dela. 

Saímos de 1970 renovados como uma fênix. Como Hércules prevalecendo a todos os desafios possíveis. No fim, nos tornamos mais parecidos com Aquiles. Destemidos, ferozes, belos, mas com uma fraqueza. Nosso calcanhar ficou exposto e em 1982 o acertaram. Nosso Páris foi a Itália de Rossi, Conti, Zoff e Baresi.

Em 1982 a Seleção Brasileira morreu novamente. E dessa vez, ficamos adormecidos num sono profundo, tal como Hermione – a de Shakespeare, por favor – petrificados;  lidando com um luto após o outro, fingindo que tudo estava bem; era como se bebêssemos do Rio Lete de 4 em 4 anos para esquecer dos traumas. Mas como esquecer quando a dor no calcanhar sempre incomoda a cada novo passo de uma Copa para outra? 

A nossa sorte é a mesma de sempre: moramos num país tropical, abençoado por Deus. E somos bons pra caralho nesse jogo. 

Nosso Rei já tinha deixado a coroa de lado nessa altura do campeonato. Outros camisas 10 buscaram produzir sua própria dinastia, e mesmo com boas pretensões – Zico, Rivellino, Ronaldinho Gaúcho – o trono continuava vago. 

Um baixinho de 1,67 de altura resolveu intervir. Como bem fala a Galadriel, “até mesmo a menor das criaturas pode mudar o rumo do mundo”. E isso vale tanto para hobbits quanto para um jogador que consegue ser ídolo do Vasco e do Flamengo ao mesmo tempo. Essa proeza é do Romário; só podia ser ele. Romário não olhava para cima porque precisava falar com pessoas mais altas que ele. Sua cabeça sempre esteve levantada, junto com o seu nariz empinado, porque ele era bom de bola e ele sabia disso. O ego compensava a altura; e ele entregava. 

Em 1994, junto com Bebeto, Taffarel, Branco, Dunga e companhia, Romário, com seus 1,67 de altura, pegou todos os traumas dos últimos vinte e quatro anos sem um Rei, sem um Saldanha, sem esperanças, deu um chute de bico para longe e trouxe para nós o tetra. 

Nem considero 1998 como uma morte, aquilo foi mais uma típica curva dramática de romance shakespeariano onde a personagem principal passa por um perrengue incontornável pelo destino. 

Por fim, 2002. Nossa última conquista. O Brasil do fenômeno, o Brasil de Ronaldo. A última ida ao Sol que transformou-se em memória de imediato. Fomos Ícaro. 

E como nos ensinou Marx, “a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa”. Nossa tragédia foi 1950, a farsa aconteceu anos depois, em 2014, no mesmo Maracanã mas com um novo carrasco: a Alemanha. O 7×1 foi a farsa em seu estado puro: um colapso tão absurdo e desprovido de dignidade epopeica que a nossa única reação possível, após o choque, foi rir da própria desgraça. 

A última grande morte da Seleção Brasileira foi, ironicamente, em nosso próprio solo gentil. 

A sombra se alastra dia após dia, Copa após Copa. O Sol queimou nossas asas e, assim como Ícaro, morremos no mar, sendo levados pelas ondas, imponentes. A cada nova Copa do Mundo que passa, ninguém nos salva desse mar de lamentações. Não há mais nem a frustração incômoda de Ademir, a raiva de Pelé, o choro de Zico e de Cerezo; tudo o que nos restou foi tudo aquilo que escrevi acima, do que foi. 

Em hipótese alguma devemos esquecer ou diminuir nossa história dentro do futebol. A memória é uma das nossas maiores armas, principalmente num mundo imediatista e tecnocrata como o nosso. Ninguém deve apagar nossos feitos, principalmente nós mesmo diante da angústia de ver novamente o Sol mais de perto pela sexta vez. 

A questão é que, se perceberem, a Seleção Brasileira parece realmente uma personagem shakespeariana; cheia de altos e baixos, conflitos, atritos, destinos fatais. Mas que no fim prevalece. Uma verdadeira odisseia que, assim como Ulisses (ou Odisseu), não deixa de lutar até o fim. A cada desafio, a cada morte simbólica, o Brasil ressurgia. 

Fazem ao menos doze anos que tudo não passa de um lembrete do passado quando convém. O presentismo tomou conta dessa geração comandada por Neymar Jr. onde as cinco estrelas no nosso peito são evidenciadas quando vem a calhar na vivência imediata. Se usa a memória dos títulos como uma presa selvagem prestes a ser abatida, que usa desesperadamente das garras e dos últimos pingos de fúria para tentar sobreviver. A atual seleção tornou-se isso: uma presa abatida, enjaulada na própria grandeza de tempos passados. 

Não temos mais os craques que nos levantaram em 1958, em 1970, em 1994. Muito menos as reformulações que existiram. Porra, até mesmo os assassinos e golpistas dos militares fizeram alguma coisa para vencer a Copa do Mundo, até mesmo esses porcos fardados. Dizer isso é tão preocupante quanto soa mesmo. 

Claro, outros tempos; outras demandas. O capitalismo muda sua forma de entender as oportunidades. E no futebol, a bola da vez é apostar, e aqui no Brasil temos um bônus: ser influencer. Ora, se a CBD já era corrupta lá quando o Rei Pelé era ainda um Príncipe, a CBF surge como uma potencializadora dessa depravação. Um grupinho, como a elite sempre gosta de fazer, uma meia dúzia de cartolas influentes com contatos de patrocinadores ditam o que deve e o que não deve acontecer na Seleção Brasileira. Não temos nenhum técnico contemporâneo que chegue aos pés da coragem de Saldanha, são todos Joões com muito medo, ou Joões coniventes. 

Há algo de podre na Granja Comary, e só nós não estamos acostumados com o cheiro ainda. Só nós que sentimos o fedor da podridão que trata jogador como uma divindade imaculada, que não pode ser contrariada. E assim vamos para a Copa do Mundo sem, de fato, uma equipe técnica multidisciplinar – sim, lá em 1958 pensávamos nisso, hoje em dia achamos cafona, pois nossos jogadores preferem rezar em seus cultos individualistas neopentecostais do que se abrir para um psicólogo ou psicóloga. 

Mas aí do adversário que for falar sobre como a Seleção Brasileira não é mais a mesma! Experimente dizer isso na frente do ufanista Neymar Jr., ele fica furioso! Vai mostrar as cinco estrelas no peito orgulhosamente. Mas ele não conquistou nenhuma delas. 

É falado aos nossos atletas desde a base até o profissional que dar certo é ir para a Europa. Esse discurso vira-lata só pode resultar nesse distanciamento da piazada com a Seleção Brasileira. Falo isso como um jovem nascido em 1996, que aos cinco anos de idade lembra da final de 2002 – lembro até de ter rezado com uma prima minha, no intervalo do jogo, para o Brasil ser campeão –, e que olhava para a seleção como o ápice desse esporte chamado futebol. 

Agora pense, um jovem que nasceu após o penta, nunca vislumbrou um título, viu esse discurso colonizador de que “bom mesmo é quem joga na Europa” ganhando mais e mais força, cresce e se depara com um herói já velho e cansado, de conquistas passadas, ser executado na arena com requintes de crueldade pelos alemães. O que se salva no vínculo emocional com a seleção? Não faço ideia. 

E isso é muito preocupante. 

Não quero nossa seleção vivendo tal qual Funes, o Memorioso; nossas lembranças devem ser potencializadoras da memória. Lembrar para fortalecer, não para usar como amuleto, como um ponto final de inúmeras discussões sem sentido. 

A solução é sempre a mesma: o capitalismo precisa acabar e uma revolução cultural precisa acontecer. Com um adendo: nossos jogadores precisam parar de dizer sobre planos de Deus e aceitarem que a culpa é deles se um gol é perdido ou um pênalti é desperdiçado. É preciso ter a vergonha de Ademir, que saiu do Rio por 15 dias porque não suportava a derrota; é preciso a fúria de Pelé por não conseguir jogar futebol devido às entradas violentas e as lesões; é preciso a marra de Romário, por vestir a amarelinha e querer mais. É preciso desses sentimentos direcionados para algo maior. 

Não adianta choro ou frustração – teve choro nos 7×1 e na eliminação para a poderosa Noruega –, se está tudo bem nossos jogadores ganharem mais dinheiro fazendo publicação no Instagram para a quero-roubar-todo-seu-dinheiro-Bet do que por jogo na Copa do Mundo. 

Já deu a letra: revolução cultural tal qual nossos queridos amigos chineses. 

Se não for isso, me contento (ao menos um pouco) com o fim da geração Neymar Jr. e a formação de uma nova piazada. Sendo professor, estou fadado à esperança. E, bom, nós ganhamos nosso primeiro título com a revelação de um muleque de 17 anos chamado Pelé. Se não pudermos acreditar em Rayan e companhia, então pode fechar esse quiosque!

Vitor Bomfim Lopes
Autor(a) Vitor Bomfim Lopes

Vitor Bomfim Lopes é formado em Licenciatura em História pela UEPG, com pesquisas na área de História e Cinema, História e Literatura, História Intelectual, entre outras. Pós-graduado em Gestão Cultural pela UNESPAR, com residência no Museu Campos Gerais. É professor, pesquisador, historiador, fascinado pelo gênero do terror no cinema, e, o mais importante, é vascaíno.

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