O papel de resistência e convivência dos sebos na cultura brasileira

28 de março de 2026 4 min de leitura

A prática de compra e venda de livros e artefatos nos chamados sebos é comum no país

Ir aos sebos, encontrar relíquias perdidas, trocar ou vender livros novos ou usados, isso já faz parte da cultura brasileira. Ao ir no sebo, gastamos menos e ainda nos encontramos com outros frequentadores assíduos.

O termo sebo está designado às casas/locais de compra, venda e troca de livros usados ou novos, além de outros artigos como CDs, discos, entre outras coisas. Acredita-se que a história desse nome vem lá de Recife, entre a década dos anos 1950 e 1960. A teoria mais comum é que o termo deriva do fato dos livros serem muito manuseados e acabarem ficando ensebados, ou seja, sujos. 

No Brasil existem 2.972 livrarias espalhadas pelo país. O número de sebos é incerto. O Anuário Nacional de Livrarias em 2023 registrou 102 sebos. Em 2026, o site Estante Virtual reúne 1.415 sebos no país todo.

Ponta Grossa hoje possui só 2 lojas com o mesmo nome, O Sebo Espaço Cultural. Na cidade não é fácil de encontrar livrarias pelas ruas, porém os sebos ainda estão lá, resistindo a esse cenário. 

Gabriel Lacerda de Souza, que frequenta o sebo desde a infância, espera que os sebos nunca fechem, pois ir ao sebo vai além do ato de comprar. “Acredito também que vai além de apenas comprar algo por um valor mais baixo do que o preço de capa, tanto que às vezes devido à raridade, esse valor é bem mais alto, é uma atividade que envolve ir até o espaço, tocar nos livros e vivenciar aquele momento seja na companhia de alguém ou sozinho”. Ele ainda relata que acha esse costume um traço cultural do brasileiro. “Envolve essa troca de vivências com quem você encontra no sebo, com quem vai junto com você até lá e vive essa experiência de encontrar coisas novas que nunca ouviu falar antes e não encontraria de outra forma que não fosse comprando algo em um sebo.”

Esses locais vendem livros novos e usados e auxiliam na democratização da leitura e do conhecimento. De acordo com a pesquisadora na área da literatura e presidente da Academia Feminina de Letras do Paraná, Luísa Cristina dos Santos Fontes, os sebos vão além de um local de compra e venda de livros. “Certamente são um dos mecanismos mais democráticos de acesso à literatura por venderem livros bem mais baratos que os livros novos. Como pesquisadora, outras questões são proeminentes. São espaços em que é possível se localizar livros fora de catálogo, esgotados, raros, com autógrafos dos próprios autores, primeiras edições, edições diferenciadas, dedicatórias inusitadas. Os sebos têm assumido também um papel de resistência cultural, já que, cada vez menos encontramos livrarias nas ruas”, completa.

Os livros de ficção e livros educacionais nem sempre cabem no bolso do leitor. É aí que os sebos entram. Os sebos não beneficiam somente os leitores, de acordo com Luísa essa prática também reflete nos autores, muitas das vezes independentes. “Muitos autores novos e de obras autorais sem vinculação a editoras, têm optado por disponibilizar seus livros nos sebos, pelo acesso a um público abrangente e pela desburocratização. Nos sebos, não encontramos, pelo menos em igual medida, o apelo dos grupos econômicos ligados às editoras, o que permite que o leitor foque em obras e autores.” Ela ainda comenta que a facilidade do acesso a esses livros, traz outros pontos como facilidades na negociação possibilitando trocas, reservas, sugestão de buscas, etc.

Para Gabriel Lacerda os sebos proporcionaram uma experiência única que moldou o seu conhecimento. “Devo muito a minha vivência como leitor a experiência que só me foi proporcionada através daquilo que encontrei no sebo, seja pelo preço mais acessível ou mesmo por encontrar ao acaso e se tornarem marcos na minha trajetória e intrinsecamente moldarem meu conhecimento. Sem sombra de dúvidas o sebo é uma porta de entrada para o conhecimento e a leitura a muitas pessoas que não tem a condição financeira de comprar algo novo e muitas vezes podem encontrar lá um produto usado tão bem cuidado que parece até mesmo novo” finaliza.

Larissa Hofbauer
Autor(a) Larissa Hofbauer

Larissa Hofbauer é ilustradora e jornalista formada na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Jornalista da Cripto Cultural Larissa é a jornalista responsável pelas redes sociais, produção e revisão de textos, além de também produzir, charges, tiras e reportagens em quadrinhos. larissa@criptocultural.com.br | contato@criptocultural.com.br

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