Anfêmero: De um viver irreversível

1 de julho de 2026 6 min de leitura

Texto de Camila Borgo produzido dentro do Projeto C.O.V.A e postado originalmente no medium no dia 01 de outubro de 2019

Hoje eu dormi no sofá porque fiquei até tarde assistindo um filme de ação. Minha mulher, Catarina, não aguentou vinte minutos e subiu para o quarto. Estava cansada, coitada. Ela faz muita coisa todo dia: trabalha em uma loja de departamentos seis dias na semana e cuida da nossa filha de oito anos, a Bia, a coisa mais linda das nossas vidas. Levantei e fui dar uma olhada na Catarina, afinal, já vai dar 6 da manhã e ela ainda não veio preparar o café.

Catarina está no quarto se arrumando para o trabalho, como ela é linda! Doze anos de casados e ela continua sendo a mesma mulher maravilhosa que conheci naquela festa de rock. Foi amor à primeira vista, só que eu tenho observado ela mais séria ultimamente, talvez seja o cansaço de fazer muitas coisas em casa e trabalhar muito, deve ser isso.

Agora ela desceu para a cozinha para fazer o café e arrumar a lancheira da Bia. Observo as duas e penso que não tenho nada do que reclamar da minha família. Saio para o quintal e observo os pássaros, as árvores e os carros passando. O sol já apareceu e está mais forte do que nunca. Reparo nos pais levando seus filhos para a escola, nas pessoas levando seus cachorros para dar uma volta e outras regando seus jardins. Rotina comum de qualquer pessoa. Catarina está ligando o carro e a minha filha já está lá dentro. Tchau meus amores, bom trabalho e boa aula. Eu vou fazer um passeio pela cidade.

Caminho até uma praça e observo as pessoas. Não está muito cheia nesse horário, mas tem mulheres e homens fazendo caminhada. Às vezes eu fico imaginando o que elas estão pensando. Será que a vida delas é boa? Será que estão correndo para se livrar das preocupações, da ansiedade ou só de gordura mesmo? O que elas estão ouvindo naqueles fones? Música, podcast, notícias?

Eu acho um baita desperdício ficar pensando no amanhã, sabe? As pessoas se preocupam demais no amanhã e esquecem de viver o hoje. Esquecem de viver o momento de agora, além de não prestarem atenção nos pequenos prazeres da vida. Abraçar sua família, ouvir os pássaros cantarem de manhã, ver o pôr do sol, sentir o vento, olhar o mar e nadar. As pessoas hoje em dia não têm tempo para pensar em fazer isso. A vida é uma loucura, mas… olha só como o dia voou e eu nem percebi! Agora é melhor eu voltar para casa que daqui a pouco a Catarina vai chegar.

Já é final da tarde e a Catarina chega com a nossa menina. Ela manda Bia ir tomar banho e depois descer para jantar. Catarina solta um suspiro e parece estar muito cansada. Como será que foi o dia dela? Observo Catarina sentando-se na poltrona. Ela pega um retrato nosso e passa o dedo na foto, depois abaixa a cabeça e coloca a mão na testa e começa a chorar. Eu a vejo fazer isso toda noite… há dois anos.

Há dois anos eu observo minha mulher e minha filha em casa fazendo de tudo. Também observo as pessoas na rua, nas praças, nos parques e nos mercados. E todo esse tempo me fez perceber que a vida é dura demais com a gente que só quer ter tudo de bom para nossa família ser feliz. Mas não dá. A vida não é boa com a gente. E não foi boa comigo.

Tentei ser um pai e um marido exemplar, sempre dando o melhor, mas eu acabava não dando muita atenção a elas, porque eu pensava que quanto mais eu trabalhasse, mais elas seriam felizes, mas isso é uma mentira que só me trouxe um infarto fulminante dois anos atrás. Agora eu tenho que conviver com o fato de vê-las todos os dias sofrendo pela minha partida, observar o viver cansado da minha esposa e o crescimento da minha filhinha sem poder abraça-la ou brincar com ela, coisas que eu não fazia quando estava vivo mas que agora me arrependo profundamente de não ter feito.

Não sei por que o ser divino me deixou vagar nesta terra, mas talvez seja o meu castigo por não ter dado valor a vida enquanto eu a tinha. O trabalho, o álcool e o cigarro eram o que me consumiam, apenas isso.

Catarina vai por nossa filha para dormir. Boa noite Bibi. Ela vai para o nosso quarto, reza para que eu esteja bem e em paz e se deita. Estou com você, meu amor, todo dia. Boa noite.

Texto produzido por Camila Borgo produzido dentro do Projeto C.O.V.A e postado originalmente no medium no dia 01 de outubro de 2019. Clique aqui para ter acesso a postagem original.

A postagem dos textos do Projeto C.O.V.A é uma parceria entre a Cripto Cultural e o Coletivo. Acesse as redes sociais do projeto:
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Companhia de Organizadores de Viagens Abissais (C.O.V.A)
Autor(a) Companhia de Organizadores de Viagens Abissais (C.O.V.A)

Projeto C.O.V.A. (Companhia De Organizadores De Viagens Abissais) é voltado para o Sombrio nos campos da Arte, Poesia, Literatura, Cinema, Música, Fotografia e Subculturas em geral. Aos Artistas Que Sobrevivem Nas Sombras Mais Inspiradoras Este Trabalho É Dedicado.

Comentários

1 comentário em “Anfêmero: De um viver irreversível

  1. Inomináveis Saudações, Cripto!

    Agradeço esta Parceria que se inicia hoje entre os nossos trabalhos, assim como a republicação deste conto. É uma obra muito bem escrita de uma antiga participante do Coletivo, hoje afastada do mesmo.

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