Hoje eu dormi no sofá porque fiquei até tarde assistindo um filme de ação. Minha mulher, Catarina, não aguentou vinte minutos e subiu para o quarto. Estava cansada, coitada. Ela faz muita coisa todo dia: trabalha em uma loja de departamentos seis dias na semana e cuida da nossa filha de oito anos, a Bia, a coisa mais linda das nossas vidas. Levantei e fui dar uma olhada na Catarina, afinal, já vai dar 6 da manhã e ela ainda não veio preparar o café.
Catarina está no quarto se arrumando para o trabalho, como ela é linda! Doze anos de casados e ela continua sendo a mesma mulher maravilhosa que conheci naquela festa de rock. Foi amor à primeira vista, só que eu tenho observado ela mais séria ultimamente, talvez seja o cansaço de fazer muitas coisas em casa e trabalhar muito, deve ser isso.
Agora ela desceu para a cozinha para fazer o café e arrumar a lancheira da Bia. Observo as duas e penso que não tenho nada do que reclamar da minha família. Saio para o quintal e observo os pássaros, as árvores e os carros passando. O sol já apareceu e está mais forte do que nunca. Reparo nos pais levando seus filhos para a escola, nas pessoas levando seus cachorros para dar uma volta e outras regando seus jardins. Rotina comum de qualquer pessoa. Catarina está ligando o carro e a minha filha já está lá dentro. Tchau meus amores, bom trabalho e boa aula. Eu vou fazer um passeio pela cidade.
Caminho até uma praça e observo as pessoas. Não está muito cheia nesse horário, mas tem mulheres e homens fazendo caminhada. Às vezes eu fico imaginando o que elas estão pensando. Será que a vida delas é boa? Será que estão correndo para se livrar das preocupações, da ansiedade ou só de gordura mesmo? O que elas estão ouvindo naqueles fones? Música, podcast, notícias?
Eu acho um baita desperdício ficar pensando no amanhã, sabe? As pessoas se preocupam demais no amanhã e esquecem de viver o hoje. Esquecem de viver o momento de agora, além de não prestarem atenção nos pequenos prazeres da vida. Abraçar sua família, ouvir os pássaros cantarem de manhã, ver o pôr do sol, sentir o vento, olhar o mar e nadar. As pessoas hoje em dia não têm tempo para pensar em fazer isso. A vida é uma loucura, mas… olha só como o dia voou e eu nem percebi! Agora é melhor eu voltar para casa que daqui a pouco a Catarina vai chegar.
Já é final da tarde e a Catarina chega com a nossa menina. Ela manda Bia ir tomar banho e depois descer para jantar. Catarina solta um suspiro e parece estar muito cansada. Como será que foi o dia dela? Observo Catarina sentando-se na poltrona. Ela pega um retrato nosso e passa o dedo na foto, depois abaixa a cabeça e coloca a mão na testa e começa a chorar. Eu a vejo fazer isso toda noite… há dois anos.
Há dois anos eu observo minha mulher e minha filha em casa fazendo de tudo. Também observo as pessoas na rua, nas praças, nos parques e nos mercados. E todo esse tempo me fez perceber que a vida é dura demais com a gente que só quer ter tudo de bom para nossa família ser feliz. Mas não dá. A vida não é boa com a gente. E não foi boa comigo.
Tentei ser um pai e um marido exemplar, sempre dando o melhor, mas eu acabava não dando muita atenção a elas, porque eu pensava que quanto mais eu trabalhasse, mais elas seriam felizes, mas isso é uma mentira que só me trouxe um infarto fulminante dois anos atrás. Agora eu tenho que conviver com o fato de vê-las todos os dias sofrendo pela minha partida, observar o viver cansado da minha esposa e o crescimento da minha filhinha sem poder abraça-la ou brincar com ela, coisas que eu não fazia quando estava vivo mas que agora me arrependo profundamente de não ter feito.
Não sei por que o ser divino me deixou vagar nesta terra, mas talvez seja o meu castigo por não ter dado valor a vida enquanto eu a tinha. O trabalho, o álcool e o cigarro eram o que me consumiam, apenas isso.
Catarina vai por nossa filha para dormir. Boa noite Bibi. Ela vai para o nosso quarto, reza para que eu esteja bem e em paz e se deita. Estou com você, meu amor, todo dia. Boa noite.
Texto produzido por Camila Borgo produzido dentro do Projeto C.O.V.A e postado originalmente no medium no dia 01 de outubro de 2019. Clique aqui para ter acesso a postagem original.

Inomináveis Saudações, Cripto!
Agradeço esta Parceria que se inicia hoje entre os nossos trabalhos, assim como a republicação deste conto. É uma obra muito bem escrita de uma antiga participante do Coletivo, hoje afastada do mesmo.