Em 1923, aconteceu a primeira viagem de moto da América do Sul. Dois amigos pegam suas motos, na época uma Harley-Davidson F-16 e uma Indian Scout e percorrem cerca de 400 quilômetros desde os Campos Gerais até Antonina. Segundo Carlos Fontes Neto, que escreveu para a coluna Sherlock Holmes Cultura, a viagem durou dois dias. A coluna traz o descritivo do primeiro motoclube fundado em Ponta Grossa e inclui algumas fotos de mulheres, homens e crianças passando o rio Tibagi na balsa Entre Rios, de motociclistas e suas motos. Naquele momento, as motos eram mais leves, modestas e com motores ainda mais barulhentos.

Mais de 100 anos depois, é possível ver uma confusão de motociclistas andando pelas calçadas, destruíndo a grama da praça e curtindo um rock pesado em plena luz do dia. Ainda bem que o Festival Rota 01 foi realizado nos dias 04 e 05 de julho de 2026, em pleno inverno paranaense, onde mesmo no sol, passamos frio. As jaquetas de couro, além de fazer parte do visual dos motoclubes, são usadas para a proteção nas estradas.
Os lojistas do entorno da Estação Saudade não viam tantas jaquetas de couro desde 2012, quando os shows do projeto Sexta às Seis deixaram de ser realizados no Coreto, ao lado do complexo de lojas populares. O encontro reuniu famílias, motociclistas e visitantes de diferentes idades, reforçando o clima de convivência característico desses eventos. Além das motocicletas, o público encontrou estandes com discos de vinil, jaquetas de couro, acessórios e motos elétricas, que também chamaram a atenção dos participantes.
Mas o que motiva os motociclistas a integrar grupos que compartilham um estilo de vida marcado por vestimentas semelhantes, gosto musical em comum e, ao mesmo tempo, pela diversidade de seus integrantes? Em entrevistas com membros de diferentes motoclubes, as respostas convergiram: a emoção de pilotar, a paixão pelas motocicletas e o senso de comunidade e amizade proporcionado pelos grupos são os principais motivos para participar desse universo.
MOTOCLUBES EM PONTA GROSSA
Hoje, em atividade, Ponta Grossa conta com nove motoclubes. A maior parte deles são sucursais de outros locais do Brasil, que fundaram seus clubes aqui na cidade. Temos aqui o Bodes do Asfalto, Viralatas, Cães de Aço, Insanos, Abutre’s, Anjos MC, Exploradores e o Moto CLube Estrada Afora.
O motoclube Viralatas foi fundado em 2008 aqui na cidade. Começou lá em Pato Branco e depois se mudou para cá com o seu criador, o Jader. No início, eram poucos integrantes e quase nenhuma organização. Mas como motoclube não é bagunça, foi necessário ter um CNPJ. E o Adilson, integrante do MC, explica que para ter os patches na jaqueta de couro é preciso pagar uma patente e registrar tudo. “Como recebemos isenção de imposto, uma das finalidades do motoclube é fornecer uma contribuição para a comunidade.” Ele explica que cada motoclube tem uma iniciativa de retorno à sociedade. No caso dos Viralatas, eles fazem doação para uma escola localizada no Paraíso e também auxiliam uma família com cestas básicas e doação de cobertores. Todos os associados do motoclube contribuem com uma taxa mensal que é repassada para a manutenção do CNPJ e também das iniciativas sem fins lucrativos. O motoclube ainda promove alguns eventos e também realiza encontros periódicos.
Adilson estava acompanhado de outros integrantes do motoclube. Ricardo, conta que é motoqueiro desde criança “através da minha bicicleta de infância que era um sonho né, depois realizei o sonho de homem né que foi adquirir a minha moto”. Já Adilson, com 18 anos trocou o carro pela moto. “Meus pais não gostaram muito, mas como eu já tinha meu emprego, fui morar sozinho.” Antes de participar do Viralatas, ele participou de outros motoclubes, mas sempre motoclubes familiares. “A gente viaja em grupo, a esposa ia junto. A gente fazia festa para a criançada no final do ano, almoço de domingo. É assim a minha vida desde os 18 anos. Eu gosto de dizer que o motoclube é um clube de amigos” observa.
O motoqueiro inclusive contou uma história que aconteceu com ele e Ricardo. Adilson queria comprar uma moto igual a de Ricardo, uma Suzuki 1.000 v-strom azul e bem na época, Ricardo estava vendendo a moto. Naquele momento, a venda acabou que não deu certo. Adilson não desistiu da busca pela moto perfeita e foi procurando pela internet até que um certo diz encontrou uma Suzuki 1.000 v-strom azul em Bandeirantes, Minas Gerais. “Você não acredita que era a dele? Comprei a moto, fui buscar e mostrei pra ele. Ai o Ricardo confirmou que era a moto dele! Mas veja só o quanto ela andou em tão pouco tempo!” conta bem humorado.
Existem também motoclubes que surgem por conta de outras reuniões. O Bodes do Asfalto, com sucursal aqui em Ponta Grossa, é um desses casos pois foi criado em 2003 por causa da maçonaria em Feira de Santana na Bahia. Hoje ele está presente em mais de 18 países e conta só com maçons motociclistas e suas esposas. Segundo informações da organização de Ponta Grossa, ele conta com mais de 400 subsedes e aproximadamente 16 mil associados. A Viviane Moreira, iniciou no MC por causa do marido. “O motoclube todos podem participar, desde que sejam maçônicos né.”

Para entrar na maçonaria é necessário um Quem Indica e ter certos requisitos de perfil. Precisa ter maioridade legal, crer em um ser supremo (independente da religião), boa reputação e renda lícita. É comum que o maçom tenha uma loja. Há documentos chamados de manuscritos maçônicos que guiam a prática, mas sabemos pouco sobre o que acontece no interior da maçonaria devido a sua estrutura interna. São pessoas discretas. Viviane conta que faz mais de 20 anos que ela e o marido são vinculados ao motoclube.
A viagem mais marcante que ela fez com o motoclube foi para Goias. “Saimos de Ponta Grossa às 7h da manhã e chegamos às 11h da noite. O mais legal é que voltamos no mesmo dia, só chegamos e já voltamos.” Também foi a viagem mais sofrida que ela já fez. Mas, ela ressalta que gosta de aventura. “ De andar de moto mesmo, porque é perigoso né. Gosto bastante.” relata bem humorada.
MOTOCLUBE ÁGUIAS DE CRISTO
Nem todos os motoclubes são formados apenas pela paixão pelas motocicletas. Marcos, No Águias de Cristo de Telêmaco Borba conta que conheceu o motociclismo através do pastor. Fundado no Brasil em 2000, o motoclube reúne motoqueiros do mundo cristão. Marcos explica que o motoclube não é vinculado a nenhuma igreja específica. Além do senso de comunidade proporcionado pelo motoclube, o objetivo do Águias de Cristo também é evangelizar. “Usamos a moto para estar e levar Jesus.” ressalta. Em Telêmaco Borba, a sucursal está há 10 anos na cidade e conta com mais de 13 sedes em diferentes países. A história de Marcos com a moto é tardia. “Eu fui ter a minha primeira moto aos 39 anos.”. O motociclista acabou ficando no motoclube porque gosta da amizade e do sentimento de fraternidade. “Gosto de conhecer várias pessoas e lugares diferentes. Não viajei tanto quanto gostaria, mas nesse ano vamos para a Argentina em agosto, passar pelo rastro da serpente” comenta.

Para quem não conhece, o Rastro da Serpente começa em São Paulo na SP-250 e termina na BR-476 no Paraná. Conhecida por ter 1.200 curvas em meio a natureza, a estrada passa pelas seguintes cidades parananenses: Adrianópolis, Bocaiúva do Sul e Curitiba. Se eles vão para a Argentina e querem passar pelo Rastro da Serpente, certamente vão começar em São Paulo e descer até Curitiba. Da capital paranaense até Foz do Iguaçu são mais de 600 quilômetros.
Veja a galeria de imagens de Larissa Hofbauer sobre o Festival Rota 01 que aconteceu nos dias 04 e 05 de julho de 2026 em frente ao Sesc Estação Saudade.







