À margem: Por que a pichação incomoda tanto?

28 de maio de 2026 7 min de leitura

RESUMO: Conversamos com um ex-pichador aqui de Ponta Grossa para entender esse movimento da contracultura. Para ele, a pichação é vista pela sociedade como um lixo. Também destacamos o documentário Pixo e uma pesquisa produzida sobre o tema.

Entrevistar pichadores é um tanto quanto difícil, mas não é impossível. Como o movimento permanece na ilegalidade, a nossa fonte não vai ser identificada, por motivos óbvios. Mas conversamos com um ex-pixador, hoje morador da cidade de Ponta Grossa. De acordo com o entrevistado a ação de pichar é um ato de protesto. “A pichação tem vários motivos, o protesto talvez seja um dos maiores, não digo o maior, mas muita gente encara no sentido de como fazer alguma coisa contra o sistema já que por meio da justiça é muito complicado.”

O entrevistado encara esse movimento como uma forma de expressão também. É por meio do pixo que algumas pessoas são notadas e deixam sua marca. “Eu acredito que a pichação hoje em dia, por causa da internet, ela é uma parada para mais se aparecer. Nas antigas, antes de internet, Instagram, essas paradas, era sim mais forte esse movimento de protesto. Protestar, anarquia, contra o sistema, contra aquilo que você não pode vencer na luta ou na justiça, mas você pode fazer alguma coisa que cause um impacto, então é por isso que a pichação é ligada ao protesto” explica.

Informações: Larissa Hofbauer. Imagem: Jessica Allana Grossi

A HISTÓRIA DA PIXAÇÃO NO BRASIL 

Para entender o momento atual da pichação no Brasil devemos entender um pouco da sua história. A pichação surge no Brasil por volta da década de 60 como um meio de protesto no período ditatorial brasileiro. Esse movimento não aconteceu somente em território nacional, mas é no Brasil que a pichação ganha uma grafia autêntica, que é a que vemos hoje em dia pelos muros das cidades.

Não é uma novidade que a pichação é vista com maus olhos pela população. Na verdade, tudo aquilo que foge da regra e do padrão não é visto com bons olhos. Mesmo no início, o grafitte era visto como um movimento de contracultura, tendo surgido em 1960 em Paris e 1970 em Nova York. Tanto a Europa quanto os Estados Unidos, naquele momento, estavam passando por revoltas, muita das vezes encabeçadas por jovens. Um grande nome do graffite que surge nos Estados Unidos nos anos 1970 e 1980 é Basquiat.

A CONTRACULTURA E A PIXAÇÃO 

A contracultura é um movimento de resistência política e artística. Como figuras desse movimento temos os punks, hippies, emos, góticos, funkeiros e rappers. Cada um dos grupos tem seus objetivos e seus próprios questionamentos sobre o que é normalidade. Os pichadores também fazem parte da chamada contracultura. De acordo com o ex-pixador, hoje graffiteiro e tatuador na cidade de Ponta Grossa, o movimento é muito criticado por fazer parte da contracultura. “A pichação é um movimento ilegal. Na legalidade você não pode chegar em uma parede e pixar, então por isso a pixação ela é muito criticada e vista pela sociedade como um lixo, e por ser algo da contracultura, que não é uma coisa que as pessoas estão familiarizadas e por ser um ato ilegal, contra a vontade de tudo e todos” completa. A contracultura é um movimento que se opõem a padrões culturais dominantes de uma sociedade. O documentário Pixo, disponível no youtube, também aborda diferentes visões sobre o tema, como a forma de enxergar o movimento também difere de pessoa para pessoa, além de falar sobre os perigos tanto com a polícia quanto físicos, pois muitas das vezes os pichadores se arriscam para alcançar o melhor lugar para a sua marca.

O movimento é claro e livre. Não há muitas regras para serem seguidas, mas a principal é não atrapalhar ou apagar o trabalho do outro e nosso entrevistado endossa esse ponto. “Pra mim pichação é um movimento primeiramente de contracultura, um movimento de protesto e um movimento de voz daqueles que não tem voz perante a sociedade. A voz de uma pessoa calada, que o sistema engrupe e cala. Eu considero tipo uma arte moderna, onde não existem muitas regras e a única regra que existe é não atropelar o do outro, não fazer por cima de onde já ta pichado.” ressalta. 

Hoje as pichações, cada qual com a sua grafia, não estão somente nas ruas. De acordo com a pesquisa ‘Só pode pixar quem não é pixador: artifícios capitalistas de criminalização e capitalização no universo da pixação’ de Ana Karina de Carvalho Oliveira e Angela Cristina Salgueiro Marques, algumas marcas relacionadas a moda, muitas das vezes famosas, trazem a estética das street arts para seus produtos. A pesquisa ainda ressalta o ponto que enquanto o pessoal das ruas pode sofrer consequências, os produtos com a estética das ruas ganha as prateleiras como itens caros.

Mas nada é preto no branco, nosso entrevistado por outro lado tem uma visão diferente. Segundo ele é uma oportunidade de ressignificar algo que não é visto por bons olhos pela sociedade. “Pra mim o movimento já perdeu muito o sentido por causa da internet. Eu não tenho Instagram para grafite por que acho que o verdadeiro movimento grafite/pichação se vê na rua. Quando ela vai para outros meios comunicativos ou meios de comércio eu acho muito legal, por que é uma coisa que é vista como um lixo e tá sendo reciclado, está sendo introduzido na sociedade de uma outra forma para que a própria sociedade deixe de ver aquilo como um lixo, mas sim como uma arte, um novo modelo de tipografia. Como eu sou especialista em tipografia, as tipografias são bem regradas, tem suas regras, seu ângulo e a pichação não, é uma coisa mais livre, mas faz com que a pessoa que ta fazendo precise ter uma base né. Uma regrinha é que todas as letras tenham uma customização para que elas possam ser um alfabeto. Então eu acho muito interessante quando a pichação ela entra em outros meios que não sejam só na rua, que ela seja inserida na sociedade de uma outra forma para que seja vista com outros olhos” explica. 

A diferenciação de pichação e grafite só existe no Brasil. Há uma lei (de número 9.605/98) que criminaliza a pichação, mas deixa o grafite legalizado. Mas basicamente são a mesma coisa, sendo a pichação uma ramificação do graffite.

Ainda de acordo com a pesquisa de Ana e Angela, também pesa a questão das classes sociais para a liberação e criminalização dessas expressões artísticas. Como pontuam as autoras, na página 130 “É preciso considerar aí, também, uma forte questão de classes. Enquanto o grafite chega ao Brasil pelas mãos de artistas plásticos com formação superior (jovens brancos, instruídos, de classe média), a pixação se dissemina como um meio de expressão próprio das periferias (de jovens negros, pobres, com baixa escolaridade), e essa diferença sobre quem produz cada intervenção tem forte implicação na diferença da visibilidade de uns como artistas e outros como marginais.” 

Larissa Hofbauer
Autor(a) Larissa Hofbauer

Larissa Hofbauer é ilustradora e jornalista formada na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Jornalista da Cripto Cultural Larissa é a jornalista responsável pelas redes sociais, produção e revisão de textos, além de também produzir, charges, tiras e reportagens em quadrinhos. larissa@criptocultural.com.br | contato@criptocultural.com.br

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