Saudades de Menina

15 de junho de 2026 4 min de leitura

Coluna Nos Versos Avessos

Quando era pequena Mayana gostava de escrever em seu diário. Todo fim de tarde ela descrevia o que acontecera em seu dia. E o que mais ela escrevia era sobre seu avô.

O tempo parecia não passar, ela morava ao lado do seu avô por parte de mãe e sentia em seu coração que tudo parecia ficar do mesmo jeito, o sol entrava pela janela na mesma hora, o café tinha o mesmo cheiro, e o braço forte do avô estava sempre lá, estendido para a receber.

Era aquele braço que a erguia para o alto quando ele chegava da rua cansado de trabalhar. Era aquele braço que a segurava firme quando atravessavam a rua, que a envolvia nos dias de chuva fria, que apontava as estrelas no céu à noite e contava histórias que pareciam não ter fim. 

Para Mayana, aquele braço era o lugar mais seguro do mundo, pois era abrigo. Ela corria, pulava, brincava, estudava e sempre voltava para o abraço que aquele braço lhe dava.

De repente o tempo, que é senhor de tudo, começou a passar, como a água que corre sem fazer barulho.

Mayana foi crescendo, as pernas ficaram mais compridas, os passos mais largos, os olhos viram mundos novos e distantes. O avô, ao contrário, foi ficando menor, os cabelos ficaram brancos como a neve, e aquele braço que antes a erguia com tanta força, agora já não tinha o mesmo vigor, curvava-se um pouco, tremia de leve, e descansava mais no colo do que nos ombros da menina que já não era tão menina assim.

Um dia, o tempo levou o avô para uma viagem sem volta. Foi então que a saudade chegou apertando o peito, e fez morada no coração de Mayana. Agora, ela já era uma moça, vivia longe, tinha os seus caminhos, as suas lutas e as suas vitórias. 

Mas havia um momento em cada dia, ou em cada noite, em que ela parava e fechava os olhos e era como se voltasse a ser pequena outra vez.

Nessas horas, ela sentia de novo o calor daquele braço a envolvê-la. Sentia o toque do abraço carinhoso que dizia tudo sem precisar de palavras. O tempo podia ter passado, podia ter mudado o tamanho das coisas, podia ter levado o avô para longe, mas não conseguiu levar a lembrança do que aquele abraço significou.

Mayana percebeu então que a saudade não era só tristeza, era também amor que ficou guardado. Era o jeito que o coração encontrava de manter tudo igual, mesmo quando tudo tinha mudado. O braço do avô já não estava ali para a segurar, mas ele tinha deixado dentro de Mayana uma força que ninguém podia tirar, a força de quem foi amada, de quem teve um porto seguro e de quem aprendeu a caminhar porque alguém a levou nos braços enquanto não sabia andar.

E quando Mayana olhava para as suas próprias mãos, para os seus próprios braços, ela sorria baixinho. Agora era ela quem estendia o braço para as crianças, para quem precisava de ajuda, para quem precisava de um abrigo. O tempo tinha passado, a saudade ainda morava lá, mas o amor que vinha daquele braço tinha crescido e se espalhado.

O tempo leva os corpos, leva os dias, leva o que se vê, mas nunca leva o que foi vivido com amor. E a menina, agora crescida, sabia bem que a melhor parte de si mesma, tinha aprendido ser mulher e que a saudade era só a forma bonita de lembrar que nunca esteve sozinha.

Luareci Gardjiores
Autor(a) Luareci Gardjiores

Professora Municipal – Educação Básica. Professora de Línguas Espanhol e Portuguesa. Escritora/Romancista. Neuropsicopedagoga. Formação em Linguagens, Literatura e Tecnologias. Formação em Pedagogia Social pela UERJ/2024. Com especialização em Direitos Humanos. Mestranda em Matemática/UEPG. Estudando Inglês. Cursando Gestão e Implementação de Políticas Públicas e Organismos de Políticas para Mulheres. Redes Sociais TikTok – luarecigardjiores Instagram: luarecigardjiores Facebook: Lu Perfume de Flor X (Antigo Twitter): arecigardjiores Blog: nosversosavessos.blogspot.com

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