Nas terras onde os campos são verdes, os rios correm cantando por entre vales e flores coloridas e cheirosas, existia a Vila Deogétia. Era um lugar antigo, de casas feitas de barro com telhados de palha, ruas de terra batida e um povo trabalhador, porém este povo vivia sempre com o coração apertado e os olhares amedrontados.
Há muito tempo, uma maldição, consome esta vila e o povo mesmo tentando não se abater, não sabia como fazer, e o medo tomava conta da Vila Deogétia.
Dizia a lenda que, nas cavernas da Serra Alta, que ficava logo atrás da última rua da aldeia, que subia para uma alta montanha, vivia uma criatura terrível, um dragão enorme, de escamas cor de carvão, que soltava fogo pelas narinas e cujo som fazia tremer as janelas à noite. Diziam os mais velhos que ele era mau, que detestava pessoas, que destruía as colheitas e que, de tempos em tempos, descia da montanha para levar algo ou alguém, deixando todos em pânico.
Por causa disso, Deogétia era uma vila triste. As crianças não brincavam longe de casa, os homens só trabalhavam perto das porteiras, e ninguém ousava sequer olhar na direção da serra. Até que, um dia, nasceu ali uma menina meiga chamada Elianara.
Elianara era diferente de todos os outros. Tinha cabelos cor de trigo, olhos grandes e claros, e um jeito de ser calmo, doce e muito curioso. Desde pequena, ela ouvia as histórias sobre o dragão, mas nunca sentiu medo. Pelo contrário, sempre que ouvia o vento uivar nas pedras ou via uma sombra grande passar depressa por entre as nuvens, ela sorria e pensava consigo mesma, ele não parece mal, e sim muito sozinho.
Enquanto as outras meninas brincavam de bonecas ou ajudavam em casa, Elianara passava horas à beira da floresta, sentada numa pedra grande, olhando para o alto da serra, falando baixinho, como se estivesse a conversar com o vento.
— Você está aí? Deve ser cansativo viver sempre tão só, não é?
— Todos têm medo de você, mas eu acho que você só precisa de alguém para conversar.
Os anos passaram, e Elianara cresceu. E a vila foi ficando cada vez mais pobre e triste. Uma seca grande chegou, os rios ficaram quase secos, e as colheitas não vingavam. O povo dizia que era o dragão que estava zangado, e que havia roubado a pouca sorte da vila. Ninguém sabia o que fazer. O desespero era tanto que alguns chegaram a dizer quer seria necessário sair da vila. Deogétia está amaldiçoada enquanto essa criatura viver ali em cima.
Foi então que Elianara pensou e decidiu precisava fazer alguma coisa para mudar aquela situação.
Certa manhã, quando o sol nascia dourado e brilhante, ela vestiu a sua saia de lã, calçou as botas, pegou a sua flauta de madeira, que ela própria tinha talhado, seu avô já falecido lhe ensinara, e encheu um alforje com pão, queijo e um frasco de mel silvestre, o doce que ela mais gostava.
Elianara saiu em busca de mudar o destino da vila Deogétia. Os vizinhos gritaram com pavor ao vê-la subir o caminho pedregoso que levava à serra. Seus pais nada podiam fazer, pois ela estava decidida e também queriam acreditar que ela seria a pessoa certa para mudar o destino da vila, não tinham mais esperança da situação melhorar.
— É morte certa menina! O monstro vai te queimar, vai te levar, e te destruir! Você não verá mais seus pais, que triste fim, garota!
Ela parou um instante, virou-se e sorriu com a sua calma de sempre. Segura disse a todos, sosseguem, fiqum tranquilos, não é um monstro. Ele é apenas um ser que ninguém nunca foi visitar. Vou lá saber quem ele é de verdade.
E continuou a subir, sem medo, as pessoas já não avistavam mais Elianara.
O caminho era íngreme, cheio de silvas, pedras soltas e árvores altas que fechavam a passagem. Mas Elianara subia devagar, respeitosa, pisando leve para não assustar ninguém. Quando chegou perto da entrada da maior caverna, na Serra Alta, sentiu o ar ficar mais quente e ouviu um som grave, profundo, como um ronco ou um suspiro enorme que vinha de dentro da terra.
Ela não gritou, não correu, apenas sentou-se numa pedra plana, à porta da caverna, pôs a flauta aos lábios e começou a tocar.
Era uma melodia suave, doce, cheia de paz. Era a música que ela inventara para as manhãs, para o vento, para as coisas bonitas que ninguém via. O som da flauta espalhou-se pelo ar, entrou pela escuridão da gruta e foi rolando, rolando, até chegar lá ao fundo.
De repente, o som parou. Do escuro surgiu uma sombra imensa, comprida e pesada. Primeiro, saiu uma cabeça grande, com olhos enormes, redondos e de uma cor verde-esmeralda brilhante. Depois, o corpo, coberto de escamas duras, escuras como pedras preciosas enegrecidas. Ergueu as asas, grandes como velas de um navio, e abriu a boca, de onde saiu uma nuvem quente e perfumado a resina.
Era ele. O dragão. Ele era mesmo grande, imponente, capaz de fazer tremer o chão só com o peso de um passo. Olhou para a pequena figura humana ali parada, sem medo, com a flauta na mão e um sorriso sereno no rosto.
E bravo resmungou, ninguém chega até aqui para tocar música, sua voz parecia o trovão distante, mas que não era má, nem agressiva. E perguntou quem é você, pequena criatura?
Elianara curvou-se ligeiramente, com todo o respeito, e respondeu com uma voz doce e calma:
— Me chamo Elianara, vim porque o meu povo sofre, mas eu acredito que não é por sua culpa. Vim porque eu sabia que você não era o que eles pensam. Eu ouvia o teu rugido, Senhor Dragão, e não ouvia raiva, ouvia tristeza, ouvia solidão.
O dragão baixou a cabeça enorme, até ficar bem perto dela, e os seus olhos brilharam com uma luz diferente, como se estivessem a brilhar de lágrimas que não podiam cair.
— É, você tem razão pequena Elianara. Há séculos que estou aqui. Eu vim para esta serra para proteger estas terras, sou o guardião das águas que correm debaixo da terra, das sementes que dormem no solo, do vento que traz a chuva. Mas os homens tiveram medo do meu tamanho, do meu fogo e da minha força. E porque um homem muito mal inventou esta lenda, e todos fugiram de mim, acreditando naquele homem mal e me chamaram de monstro e me amaldiçoaram. E assim fiquei aqui, sozinho, cumprindo a minha missão em silêncio, odiado por quem eu devia proteger.
Ele fez uma pausa, e apontou com a ponta da cauda para o vale lá embaixo, onde a vila parecia um brinquedo pequeno.
— Eles pensam que eu lhes faço mal. Mas a seca, a falta de sorte, tudo isso acontece é porque, quando o coração de um povo se fecha ao medo, a terra também se fecha. Eu tento mandar a água, tento mandar a força, mas ninguém recebe, porque ninguém confia.
Elianara ouviu tudo, e compreendeu finalmente. Ela abriu o alforje, tirou o mel, o pão e ofereceu-os ao dragão.
Ela prometeu a ele que daquele dia em diante, tudo iria mudar, eu confio em você, vou ser a sua voz lá embaixo e a sua amiga. Vou ser a ponte entre você e a Vila Deogétia.
O dragão tocou suavemente na oferta com a ponta da língua, macia e quente, e sentiu o sabor doce do carinho humano. Pela primeira vez em tantos anos, o seu coração antigo e duro se aqueceu.
— O meu nome é Theulyn eu aceito ser seu amigo tasmbém e a vila Deogétia nunca mais vai sofrer.
Naquele dia, aconteceu o que ninguém jamais imaginou ver.
Elianara subiu nas costas do dragão, entre as suas asas poderosas. Theulyn bateu asas e ergueu-se no ar, subindo cada vez mais alto, cortando as nuvens, e depois desceu em grande círculo, pairando suavemente sobre a praça principal da vila.
O povo, que estava lá fora a lamentar a sorte, parou tudo o que fazia. Gritos de medo começaram a subir, mas calaram-se quando viram sobre o dorso da criatura que todos temiam, estava Elianara, de pé, de braços abertos, sorrindo para todos.
— E disse sorrindo, não tenham medo! E sua voz ecoou por todo o lado. Este é Theulyn! Ele não é a maldição! Ele é o nosso guardião, o nosso amigo, a nossa força! O medo é que nos fazia mal, não ele!
Theulyn, com uma delicadeza incrível para o seu tamanho, abriu as asas e soprou suavemente. E da sua boca não saiu fogo destruidor, mas sim uma brisa morna, cheia de vapor e de magia, que passou por todos os lados, refrescando o ar, tocando a terra, enchendo os poços que tinham secado, fazendo as árvores ficarem verdes e cheias de frutos.
E todos sentiram que não havia mal nenhum ali. Havia apenas uma força antiga, sábia e boa, que só esperava ser compreendida.
A partir daquele dia, a Vila Deogétia mudou completamente.
O medo deu lugar à gratidão. As crianças subiam a serra para brincar com Theulyn, ouvindo as suas histórias de tempos passados. Os homens iam até lá aprender com ele os segredos da terra, das ervas e das chuvas. Theulyn deixou de viver fechado na escuridão, passou a viver ao lado deles, na serra, mas também voando sobre os campos, abençoando cada semente plantada.
Elianara e o seu dragão tornaram-se o coração daquele lugar. Ela ensinou a todos que o que parece assustador à primeira vista pode ser o nosso maior tesouro, se tivermos a coragem de olhar com o coração puro e limpo, com a mente cheia de pensamentos bons e alegres.
E tão logo, a vila Deogétia passou a ter festas para comemorar as colheitas que eram fartas. O povo dançava, cantava e sorria.
A magia tomava conta daquele lugar. A flauta de Elianara soava sons de alegria, de paz e de verdadeira harmonia e tornou-se aquela vila a lenda mais poderosa para aquela época, pois uma amizade sincera vence o medo e transforma o terror em amor.
